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Do território às políticas públicas: a força coletiva dos povos indígenas

  • ip2459
  • 2 de abr.
  • 4 min de leitura

Por Thiago Aiamari Kavopi


Fonte: Thiago Aiamari Kavopi. Aldeia Paikum, Território Indígena Kurâ-Bakairi, Município de Paranatinga, Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil.
Fonte: Thiago Aiamari Kavopi. Aldeia Paikum, Território Indígena Kurâ-Bakairi, Município de Paranatinga, Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil.

Abril é um mês simbólico. Para muitos, é apenas mais uma data no calendário. Para nós, povos indígenas, é tempo de memória, de luta e de reafirmação da nossa existência. Eu nasci no Território Indígena Kurâ-Bakairi, localizado no município de Paranatinga, Mato Grosso, Brasil. Sou um Kurâ-Bakairi. Kurâ significa “gente”, Nós, Ser Humano. Essa palavra já revela muito sobre a forma como compreendemos o mundo: ninguém existe sozinho. A vida acontece na relação com o outro, com o território, com a natureza e com a memória coletiva do nosso povo. Minhas primeiras lembranças estão profundamente ligadas à vida na aldeia: o rio, o mato, os animais, o ciclo das chuvas e das secas, a família e o sentimento de pertencimento. Na nossa concepção, tudo está interligado e em constante movimento para sustentar a vida social e espiritual. O território não é apenas um espaço geográfico; é lugar de pertencimento, de aprendizado e de continuidade da nossa história.


Realizei toda a minha formação básica, ensino fundamental e médio, dentro da aldeia, com professores indígenas do meu próprio povo. Foi nesse ambiente que aprendi não apenas conteúdos escolares, mas também valores fundamentais sobre coletividade, respeito ao território e responsabilidade com a comunidade. Viver na aldeia, portanto, nunca foi apenas um modo de vida. Também é um ato político e de resistência.


Quando chegou o momento de sair do meu território para cursar a universidade, eu sabia que aquele passo não era apenas individual. Carregava comigo os ensinamentos do meu povo e a expectativa coletiva de que aquele caminho pudesse abrir novas possibilidades. A nossa presença nas universidades não surgiu por acaso, é fruto de décadas de mobilização, organização política e luta por direitos. Ao longo da história, nós enfrentamos processos de invisibilização, exclusão e tentativas constantes de apagamento de nossas culturas e territórios. 


Se hoje ocupamos espaços no ensino superior, nas instituições públicas e em diferentes áreas profissionais, isso é fruto de uma caminhada coletiva construída por muitas lideranças e movimentos indígenas. Um marco importante nesse processo foi a consolidação dos direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal de 1988, que reconheceu os nossos direitos à organização social, à cultura e aos territórios. A partir desse reconhecimento, abriram-se caminhos para a construção de políticas públicas específicas e para uma maior participação indígena na vida institucional do Estado.


Hoje atuo na área da saúde indígena, desenvolvendo ações voltadas à saúde mental em territórios indígenas. Essa experiência me permite perceber, na prática, como as políticas públicas conquistadas ao longo da história podem se transformar em cuidado concreto dentro das comunidades.


Mas trabalhar com saúde mental em contexto indígena exige mais do que aplicar técnicas aprendidas na universidade. Exige compreender o território, ouvir as histórias do povo, respeitar as decisões comunitárias e reconhecer que o sofrimento humano não pode ser analisado de forma isolada. Ele está profundamente relacionado às condições históricas, sociais e culturais que atravessam a vida coletiva.


Quando entro em uma aldeia para realizar ações de saúde mental, não entro apenas como psicólogo. Entro como parte de um povo que sempre soube cuidar de si, mesmo diante das inúmeras tentativas de apagamento. Nesse processo, a presença de profissionais indígenas dentro das políticas públicas também provoca transformações nas próprias instituições.


Ao ocuparmos esses espaços, não estamos apenas nos adaptando a eles. Estamos fazendo parte, como protagonistas, do processo de consolidação das políticas públicas voltadas para os povos indígenas, sem perder a identidade ou renunciar as raízes ancestrais, aldeando as políticas públicas com as nossas vozes e lutas. Portanto, a minha trajetória, do território à universidade, das políticas públicas ao território, não é apenas uma história individual. Ela faz parte de uma caminhada coletiva construída pela força e pela mobilização dos povos indígenas. Ao longo das últimas décadas, ou mesmo, desde a invasão, nossos povos têm lutado não apenas para garantir direitos, mas também para serem protagonistas da própria história. Cada espaço que hoje ocupamos nas universidades, nas instituições e nas políticas públicas é resultado dessa luta coletiva. E é também a prova de que seguimos vivos, organizados e comprometidos em construir um futuro em que nossos povos continuem existindo com dignidade, autonomia e voz. 


Sobre o autor: 

Pai de Sam e Thales, casado com Jasilene. Indígena do povo Kurâ-Bakairi, Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (2016) e licenciado pelo Conselho Regional de Psicologia do Mato Grosso (CRP–18/03227). Especialista em saúde mental em contexto indígena. Atua, desde 2018, no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI – Cuiabá). Foi psicólogo do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Paranatinga (2017–2018). Conselheiro efetivo do Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso (2025–2028). Já coordenou a Comissão de Direitos Humanos e Políticas Públicas do Conselho Regional de Psicologia do Mato Grosso (2024–2025) e, atualmente, coordena a Comissão de Psicologia e Povos Indígenas do CRP–18/MT.


Contato para atendimentos, palestras e parcerias:

Psicólogo clínico | Educador | Palestrante em saúde mental

Atendimento psicológico na modalidade Online

WhatsApp: (65) 99340-9668

E-mail: thiagoaiamari.psi@gmail.com

Instagram: @thiago_aiamari




 
 
 

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