Colecionadores de Memórias
- ip2459
- 3 de jun.
- 4 min de leitura
por Naiana Marinho Gonçalves
![]() Fonte: Cribiás 300+: Por uma Educação Patrimonial toda nossa (Andrade, 2021). Registro do Projeto Cribiás 300+ em 2019. Experiência do encontro entre crianças de uma unidade de educação infantil de Cuiabá, Mato Grosso, e o artista visual cuiabano Benedito Nunes. Parte de nós escuta julho e dezembro chegando com certo arrepio na espinha. As férias escolares se aproximam e, junto delas, uma pergunta silenciosa atravessa muitas casas: como cuidar quando o corpo já está cansado? Do lado de cá da rotina, existem os relógios apertados, os trabalhos em escala, os ônibus lotados, as contas acumuladas sobre a mesa, os salários que quase nunca alcançam o tamanho da vida. Existe também a tarefa cotidiana – às vezes bonita, às vezes exaustiva – de sustentar presenças para crianças e adolescentes em um mundo que parece pedir pressa o tempo todo. Quando a escola pausa, outras urgências aparecem. Quem pode ficar? Quem acompanha? Quem brinca? Quem descansa? Quem consegue transformar a convivência em encontro depois de dias tão corridos? Talvez uma das maiores marcas do nosso tempo seja justamente essa: estamos, cada vez mais, cansados uns para os outros. E, então, vale perguntar: como andam as conversas dentro de casa? As histórias compartilhadas? As risadas distraídas? As caminhadas sem destino? As crianças conhecem as histórias dos próprios nomes? Sabem quem eram seus avós quando eram pequenos? Já ouviram os causos da rua onde moram? Já repararam nos monumentos da cidade, nas árvores antigas, nas feiras, nos sotaques, nos rostos que fazem um bairro existir? Cuidar de crianças não é tarefa de uma pessoa só. A própria ideia de proteção à infância estabelece o reconhecimento de que toda uma sociedade participa da construção das condições de vida de suas crianças e adolescentes. Por isso, falar de férias escolares é também falar de trabalho, de cidade, de tempo, de desigualdade, de presença e de afeto. Cuidar das crianças e adolescentes é responsabilidade pública. ![]() Fonte: Cribiás 300+: Por uma Educação Patrimonial toda nossa (Andrade, 2021). Momento registrado durante uma das oficinas no Centro Histórico de Cuiabá, Mato Grosso, em 2021. “Colecionadores de memórias” faz referência a uma metodologia participativa de Educação Patrimonial com crianças e adolescentes experimentada na cidade de Cuiabá, Mato Grosso, que propôs caminhadas pelas ruas do centro histórico a partir de um roteiro narrativo para conhecer a cidade e suas histórias (Andrade, 2021). É, essencialmente, o nome de uma brincadeira. Mas talvez também seja o convite a um jeito de existir. Conhecer a barbearia mais antiga e ainda aberta da cidade, subir a escadaria que liga as primeiras ruas de Cuiabá, conversar com a quituteira guardiã das receitas tradicionais da cultura cuiabana. Escutar histórias, observar marcas antigas, imaginar vidas que passaram por ali. Descobrir que uma cidade também fala. Talvez as férias possam ser isso. Não necessariamente viagens caras ou grandes programações. Às vezes, basta um tempo possível de encontro. Uma roda de conversa na calçada. Alguém contando histórias. Uma criança descobrindo a origem do próprio nome. Um passeio de ônibus sem pressa. Um desenho feito depois da chuva. Uma tarde inventando brincadeiras dentro de casa. Memória também se constrói nas pequenas coisas. E brincar – coisa tantas vezes esquecida na vida adulta – talvez seja uma das formas mais profundas de descanso. Porque brincar suspende, ainda que por instantes, a lógica da produtividade. Brincar devolve a imaginação ao corpo cansado. Brincar cria vínculo. Brincar lembra que viver pode ir além de apenas sobreviver. Então, fica o convite: Se nessas férias você pudesse brincar de ser colecionador de memórias, o que gostaria de guardar no presente? Sobre a autora: ![]() Psicóloga Clínica. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Em formação pela abordagem da Experiência Somática (Somatic Experiencing - SE), pesquisando principalmente desenvolvimento humano, contextos de trauma racial e trauma de desenvolvimento. Representante do Conselho Regional de Psicologia 18ª região MT no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDCA – MT), biênio 2024-2026. Psicóloga clínica/Educadora/Consultoria em Desenvolvimento Humano e Coletividades. Atendimentos clínicos na modalidade online (CRP 18/05172). E-mail: psinaianamarinho@gmail.com Whatsapp: +55 65 9 9930 7667 Bibliografia consultada: GONÇALVES, N. M. Crianças na universidade: representações sociais de gestores da Universidade Federal de Mato Grosso. 2019. 147 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Instituto de Educação, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2019. ANDRADE, D. B. S. F. ; ASSUNÇÃO, A. M. L. ; RAMOS, C. C. F. ; GONÇALVES, N. M. Cuiabá das Crianças e dos Adolescentes: A cidade como sala de aula. Revista Pedagogia UFMT, v. 1, p. 26-40, 2014. GONÇALVES, N. M.; ASSUNÇÃO, A. M. L ; POUBEL, P. F . 'Mas a gente não tem poder em nada!': representações sociais da cidade segundo crianças. In: Anais do XII Encontro de Pesquisa em Educação da Região Centro-Oeste - Reunião Científica Regional da ANPEd, 2014. GONÇALVES, N. M.; ASSUNÇÃO, A. M. L. ; POUBEL, P. F ; RAMOS, C. C. F. . A cidade e a criança: representações sociais em construção. In: Anais da 12ª Conferência Internacional sobre Representações Sociais e IV Colóquio Luso-Brasileiro sobre Saúde, Educação e Representações Sociais, 2014. p. 1122-1130. CUNHA, J. R. F.; ANDRADE, D. B. S. F. ; GONÇALVES, N. M. Os impactos da Copa do Mundo em Cuiabá/MT, segundo crianças. In: Anais da X Jornada Internacional sobre Representações Sociais e VIII Conferência Brasileira sobre Representações Sociais, 2017. |






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