top of page

Mulheres, mães e professoras: Repensando a feminização do magistério

  • ip2459
  • 5 de mar.
  • 3 min de leitura

por Marcella Winter


Normalistas da Escola da Praça, futuro IE Caetano de Campos, mostrando trabalho manual; 1909. (Acervo Caetano de Campos; CRE M. Covas)
Normalistas da Escola da Praça, futuro IE Caetano de Campos, mostrando trabalho manual; 1909. (Acervo Caetano de Campos; CRE M. Covas)

Você já refletiu sobre como os papéis sociais atribuídos a professoras e a mães se articulam na história da educação? 


Desde a Educação Infantil, por muito tempo conhecida como “maternal”, o cuidado e a educação das crianças são exercidos predominantemente por mulheres. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a figura da “tia” reforça a ideia de continuidade entre família e escola. Apenas nas etapas finais da escolarização a presença masculina se amplia, sobretudo em componentes curriculares específicos. A presença dos homens é ainda mais evidente no ensino superior e em altos cargos de gestão educacional. Essa distribuição desigual não é neutra: ela incide sobre trajetórias profissionais, padrões de remuneração e reconhecimento social, além de influenciar percepções de autoridade e competência no espaço escolar e além dele. 


A associação entre docência e maternidade não é casual; trata-se de um processo histórico que consolidou a presença feminina como maioria no magistério e moldou expectativas sociais sobre o trabalho das mulheres na sociedade e, portanto, na escola. Esse fenômeno, chamado “feminização do magistério”, ficou mais evidente no século XIX, quando homens passaram a migrar para ocupações mais valorizadas social e economicamente, dentro e fora da área da educação. A partir de então, as vagas docentes, principalmente nos primeiros anos do ensino formal, passaram a ser ocupadas por mulheres das classes médias brancas e minimamente escolarizadas. Para essas mulheres, a docência representou uma possibilidade de atuação pública e relativa autonomia econômica em um contexto que não oferecia muito a elas.


Esse processo, observado no Brasil e em outras partes do mundo, foi inicialmente sustentado por concepções religiosas e científicas que vinculavam a identidade feminina à maternidade, ao cuidado e à formação moral das crianças. No contexto de sociedades patriarcais, às mulheres eram atribuídos os papéis de esposas e mães, e o ensino passou a ser compreendido como extensão dessas funções. Assim, consolidou-se a ideia de que ensinar, principalmente para crianças pequenas, seria uma aptidão “natural” das mulheres. Esses estereótipos permanecem e contribuem para uma dinâmica persistente: a docência é uma profissão majoritariamente feminina e, justamente por essa composição, segue submetida a processos de desvalorização simbólica e material. Se o cuidado é visto como vocação, o trabalho docente tende a ser percebido como missão, não como profissão que exige formação, condições de trabalho e valorização salarial.


A sobreposição entre maternidade e docência também se manifesta no âmbito doméstico. Ainda hoje, recai majoritariamente sobre as mães a responsabilidade pelo acompanhamento escolar dos filhos, pela mediação com a escola e pela organização da rotina de estudos. Em contextos de crise, como o vivenciado durante a pandemia de COVID-19, essa sobrecarga tornou-se mais visível, evidenciando desigualdades persistentes entre homens e mulheres.


No mês em que celebramos as mulheres, é necessário reconhecer a centralidade histórica de sua atuação na educação e, simultaneamente, questionar as estruturas que naturalizam a desigualdade. Também é primordial compreender que a feminização do magistério requer uma análise que articule sexo, classe social e raça, uma vez que as desigualdades se acumulam e se manifestam de forma diferenciada. A desvalorização das professoras está vinculada tanto à ausência de políticas consistentes de carreira, remuneração e condições de trabalho quanto à permanência de concepções que associam a docência a uma suposta vocação feminina. Valorizar o trabalho das professoras e reconhecer o trabalho central das mães na escolarização dos filhos são passos fundamentais para construir uma educação mais equitativa e uma sociedade que distribua responsabilidades e oportunidades de forma mais justa.


Indicações para aprofundamento no tema:

Olhar à Veras Podcast. (2021). #8: A Feminização do Magistério, com Marcella Winter. https://open.spotify.com/episode/5RUTGimBvEkpfatHhtb0Zh?si=_jpyo4nSTlq5ATT68lNjrg


Kelleher, F. (2011). Women and the teaching profession: Exploring the feminization debate. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000212200.locale=endebate.


Louzano, P., Rocha, V., Moriconi, G. M., Oliveira, R. P.  (2010). Quem quer ser professor? Atratividade, seleção e formação docente no Brasil. Est. Aval. Educ., 21(47), 543-568. http://www.fcc.org.br/pesquisa/publicacoes/eae/arquivos/1608/1608.pdf


Davila, J. (2003). Diploma de brancura: Política social e racial no Brasil, 1917–1945. Editora UNESP.


Almeida, J. S. de. (1998). Mulher e educação: A paixão pelo possível. Editora UNESP.


Freire, P. (1997). Professora, sim, tia não: Cartas a quem ousa ensinar. Olho d’Água.


Sobre a autora: 


Marcella Winter é doutora e mestre em Educação Internacional e Comparada pelo Teachers College, Columbia University. É também mestre em Relações Internacionais (UERJ) e bacharel em Relações Internacionais (PUC-Rio). Sua pesquisa enfatiza a formulação e implementação de políticas educacionais no Brasil, com especial interesse na construção de estereótipos sobre a criança da escola pública, e a educação de mulheres e meninas. É uma das fundadoras da Paulo Freire Initiative de Teachers College, Columbia University.



 
 
 

Comentários


bottom of page