Pelas lentes de Gordon Parks: fotografias que educam
- Mariana Lederman
- há 15 horas
- 3 min de leitura
por Andréia Maria de Lima Assunção

Recentemente, tive a oportunidade de prestigiar parte do acervo fotográfico de Gordon Parks (1912-2006). Na visitação, conheci registros realizados entre os anos de 1940 e 1970, em pleno horror da segregação racial nos Estados Unidos. Suas fotografias dão vida a cenas que retratam desde a beleza da vida cotidiana do Harlem e das regiões rurais do Alabama até as lutas por libertação e o design urbano segregacionista do país, arquitetado para operar a desumanização e a discriminação racial.
A arquitetura urbana separatista está escancarada na imagem que inaugura a exposição, Loja de Departamento (1956). Nela, uma mulher e uma criança negras, em trajes de festa, aparecem em frente a uma loja em Mobile, Alabama, posicionadas de costas para o letreiro “colored entrance”, tradução livre de “entrada para pessoas de cor”. Outro registro, intitulado Sala de aula para negros (1956), exibe um espaço escolar de mobília precária e um aquecedor a lenha ao centro. Uma fotografia que expõe a realidade da segregação racial nas escolas do sul do país, na cidade de Shady Grove, Alabama.
Nesse período, foi realizado o Experimento das Bonecas, conduzido pela Dra. Mamie Clark e pelo Dr. Kenneth Clark, primeiras pessoas negras americanas a obterem o título de doutorado em psicologia pela Universidade de Columbia, na década de 1940. O estudo foi capturado por Gordon Parks na fotografia Teste das Bonecas (1947), que retrata uma criança negra escolhendo uma boneca branca em resposta a perguntas como “Com qual boneca gostaria de brincar?” ou “Me aponte a boneca bonita?”. | ![]() |
As bonecas eram similares, exceto pela cor. Os resultados revelaram os impactos psicossociais da política segregacionista e racista no processo de constituição de si de crianças negras de pouca idade. A pesquisa ganhou reconhecimento internacional e tornou-se um dos catalisadores do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos na década de 1960. Seus achados também inspiraram pesquisas conduzidas no Brasil pela psicanalista negra Virgínia Bicudo, uma expoente da psicologia brasileira nos estudos sobre racismo e processos de racialização.
A exposição Gordon Parks - A América sou eu, a maior já realizada na América Latina, é fruto de uma parceria com a The Gordon Parks Foundation e está em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo, até 1º de março de 2026. Uma oportunidade singular de formação docente e reflexão sobre as relações étnico-raciais e os efeitos político-sociais do racismo. Vale também garantir um exemplar do catálogo, que reúne contribuições sobre modos de praticar pedagogias antirracistas.
Sobre a autora:
Andréia Maria de Lima Assunção é psicóloga clínica e pesquisadora mato-grossense dedicada aos estudos sobre políticas de promoção de equidade e universalização de direitos. É membra da Iniciativa Paulo Freire de Teachers College, Universidade de Columbia, onde realizou parte de seus estudos de doutorado, com financiamento da CAPES. Para acompanhar o seu trabalho, siga o perfil no Instagram @deiadeialima.
Bibliografia consultada:
Cruz, A. C. J., Abramowicz, A. & Rodrigues, T. C. (2015). A pesquisa sobre criança e infância no Projeto UNESCO. Revista Eletrônica de Educação, 9(2), 321-345.IMS (2025).
Gordon Parks - A América sou eu. Cadernos de Mediação Cultural, 1(1), 1-19.
IMS (2025). Textos da Exposição. Recuperado de https://ims.com.br/2025/10/08/gordon-parks-a-america-sou-eu-textos-da-exposicao
The Gordon Parks Foundation (n.d.). Doll Test, 1947. Recuperado de https://www.gordonparksfoundation.org/gordon-parks/photography-archive/doll-test-19472


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