Você já brincou hoje?
- Mariana Lederman
- há 15 horas
- 3 min de leitura
por Bianca Rozenberg

À primeira vista, a pergunta parece simples, talvez direcionada a um público específico. Mas, quando colocada no centro da vida, da cidade e da educação, ela se torna profundamente política. Brincar é um direito e também um modo de ser e estar no mundo, uma prática que atravessa corpos, culturas e memórias, produz pertencimento e cria conhecimento na própria experiência de viver e se relacionar.
Quando ampliamos o olhar sobre o brincar para além do gesto individual, ele se revela como uma dimensão coletiva e pública. Na escola, na rua, nos parques e nas praças, brincar junto, ocupar espaços e produzir encontros afirma presenças e reinventa o cotidiano da cidade. O brincar coletivo transforma os espaços públicos em territórios de convivência, memória e disputa de sentidos, revelando seu caráter político ao tensionar lógicas de isolamento, produtividade e uso estritamente funcional da cidade.
É nesse ponto que o brincar se aproxima diretamente da experiência urbana e dos modos de viver a cidade. Quando brincamos juntos, produzimos usos não previstos para os espaços, suspendemos temporariamente suas funções utilitárias e criamos outras formas de estar em comum. A praça deixa de ser apenas passagem, a rua deixa de ser apenas circulação, a escola se abre para outras formas de encontro e experiência. O brincar instaura tempos próprios, convoca corpos, ativa memórias e constrói pertencimento. Ao ocupar o espaço público com jogos, festas, encontros e celebrações, afirmamos que a cidade não é apenas infraestrutura, mas também relação, experiência e (re)invenção cotidiana.
O Carnaval explicita essa potência do brincar coletivo ao escancarar a cidade como território de disputa, invenção e presença popular. Ao ocupar ruas, praças e avenidas, o brincar deixa de ser tolerado para se tornar afirmação: de corpos que existem, de culturas que resistem, de modos de vida que não cabem na lógica do controle, da produtividade e da cidade funcional. No Carnaval, brincar é festa, mas também é gesto político. Crianças, jovens e adultos reinventam juntos os usos do espaço urbano, suspendem hierarquias, deslocam normas e afirmam que a cidade é feita para encontro, festa, criação e conflito. O Carnaval não inaugura o brincar, mas o torna incontornável, revelando-o como patrimônio cultural vivo e como prática coletiva que insiste em (re)existir, mesmo quando tentam silenciá-la, regulá-la ou expulsá-la do espaço público.
Talvez seja por isso que, às vésperas do Carnaval, valha retomar a pergunta inicial com mais cuidado: você já brincou hoje? Em meio às urgências da vida urbana, lembrar do brincar é lembrar do encontro, do corpo, do tempo compartilhado e da alegria como experiência coletiva. Brincar não resolve as urgências da vida urbana, mas abre frestas. Convoca a presença, a escuta, o riso e o estar junto. Que o Carnaval nos lembre que a cidade pode ser espaço de festa, criação e pertencimento, e que o brincar, longe de ser exceção, siga habitando nossos modos de viver, aprender e ocupar o espaço público ao longo do ano.
Para seguir pensando sobre o brincar e os espaços públicos, indico o documentário Brincar é Direito (2025), que retrata uma mobilização popular pela revitalização de uma praça no Campo Limpo, em São Paulo. Parte da campanha nacional Brincar é Direito, o filme está disponível gratuitamente. Veja o documentário no link e saiba mais sobre a campanha no site.
Sobre a Autora:
Bianca Rozenberg é ludóloga e pesquisadora da cultura lúdica, com foco em jogos de tabuleiro tradicionais, abstratos e de estratégia. Mestra em Educação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e pedagoga pela Universidade de São Paulo (USP), atua como formadora de professores em jogos e didática da matemática e como professora em uma escola, onde desenvolve práticas com jogos de tabuleiro. Há 15 anos trabalha com a cultura dos jogos, e sua trajetória articula pesquisa, educação e práticas culturais em diferentes territórios. Foi Assessora do Programa de Jogos de Tabuleiro da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e fundou a Central dos Jogos.

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